Keeping Up with Amandha Gaio

Com referências como O Diabo Veste Prada, Sex and The City e The Bold Type, a ideia de sair de uma cidade no interior do Paraná com menos de 10 mil habitantes pra viver na capital do mundo trabalhando com moda pode parecer bem distante, mas — nessa entrevista — Amandha Gaio desmistifica a vida fashion na Big Apple.

Ao abrir o Instagram de Amandha — que vive em Nova York há quase 6 anos — nos deparamos com produções elaboradas de Jade Picon, Pabllo Vittar e Bruna Marquezine. Até os clicks descontraídos de seu dia-a-dia são descolados o suficiente pra aparecerem em editoriais da revista i-D: fachadas nova-iorquinas antigas, outfits que misturam conforto ao inusitado e rooftops de tirar o fôlego. Tudo ali parece cenário de um filme cool.

Por isso, enquanto me preparo pra entrevistá-la, só consigo pensar “não tenho nem roupa pra isso“.

Amandha é produtora de moda e stylist, profissões que ela explica melhor enquanto está presa em um táxi num dia de chuva em NYC:

Eu faço produção, não compras de luxo. Entro em contato com as marcas, com os escritórios e faço essa introdução: quem é o artista com quem estou trabalhando, qual o projeto, o que a gente vai fazer… aí, traduzo o material do artista pro inglês, consigo os looks, recebo, faço o trabalho, devolvo… faço toda essa parte bem de logística, sabe? Eu mando bastante produção pro Brasil. Tipo, as últimas produções da Pabllo eu fiz, mandei pessoas com as malas pro Brasil e depois elas voltaram pra cá. É um trabalho bem doido, uma área da moda que acho que a galera não conhece muito“.

Mas o caminho que a fez chegar até aí é ainda mais interessante, principalmente porque Gaio nasceu em Agudos do Sul, uma cidade de 9.500 habitantes na divisa entre o Paraná e Santa Catarina.

Pergunto como surgiu o interesse pela moda e se ela tinha parentes na indústria. A resposta? Não exatamente.

Eu ainda estava na 1ª série [quando surgiu o interesse por moda] e eu e minhas amigas combinamos de fazer um vestido, porque ia ter o concurso da rainha do rodeio — aquela coisa de baile gaúcho e tal — e eu lembro que eu amava ficar vendo revistas e desenhando vestidos… desenho de criança, mas eu amava.

E a minha avó materna era costureira de mão cheia, as roupas que ela fazia eram impecáveis e ela era famosa na cidade por isso, então eu passava o dia inteiro com ela no quartinho de costura fazendo roupas pras minhas Barbies. É uma coisa que já veio comigo desde novinha.”

Mas a moda deu suas voltas antes de entrar na vida de Amandha em sua forma definitiva.

Aos 16 anos, ela foi descoberta por um olheiro enquanto passeava com a mãe por um shopping e trabalhou como modelo durante algum tempo até terminar o ensino médio. Ao se formar, teve medo de cursar moda por não ser uma desenhista excepcional e optou por turismo sem saber muito bem o porquê.

Eu acho que eu tinha muito essa cabeça que todo mundo tem: quem faz moda vai desenhar roupa e costurar. Era muito limitada a minha ideia do que era trabalhar com moda.

O turismo não durou muito e ela logo trancou a faculdade. Aí, pensou em jornalismo pra trabalhar na Vogue — já que seu filme favorito sempre foi O Diabo Veste Prada — foi então que sua mãe a chamou pra realidade:

Ela disse ‘Para de ficar dando voltas e faz moda de uma vez!’ só que nisso eu fui trabalhar como modelo. Fiquei um tempo na Ásia e na Europa, mas me desiludi com a profissão. Pra você ter ideia de como o meio das modelos é tóxico, eu tinha 21 anos e achava que era velha. Aí, voltei pra casa pra estudar“.

Os pais de Amandha são professores da rede pública e, por isso, dentro de casa sempre houve essa noção de que ela precisava de uma educação superior para ser bem sucedida. Então, quando os planos de ser modelo não deram certo, foi o momento de finalmente investir em estudar moda.

Logo no seu primeiro ano na faculdade, Gaio foi visitar uma amiga que conheceu na época de modelo e que agora estava vivendo com um namorado em Cape Town, na África do Sul.

Eu não conhecia muito bem o namorado dela, mas estávamos conversando e ele perguntou várias coisas sobre o que eu estava fazendo [agora que não era mais modelo]. Aí, comentei que tava cursando faculdade de moda e ele disse que eu poderia trabalhar na empresa dele. Fiquei ‘ué, como assim?!’ porque não sabia o que ele fazia. Foi então que ele contou que tinha uma empresa de moda e que eu poderia trabalhar lá. Mas eu ainda estava no primeiro ano e a empresa era em Cape Town, então não quis parar a faculdade naquela hora.”

Amandha concluiu os estudos, se formou, mas manteve o job em mente, já que o rapaz disse que a proposta ainda estava de pé. Foi aí que as coisas saíram do planejado: ela esperava começar a carreira na África do Sul, mas a companhia havia acabado de abrir um escritório em NYC — e foi assim que ela conseguiu a oportunidade que mudou o jogo pra sempre.

Eu terminei a faculdade em dezembro e em abril eu tava em Nova York. Aí, fiquei três meses estagiando na empresa — que era de um ramo que eles chamam de private label, empresas que produzem para outras empresas. Tipo fast fashion, produção em grande escala e tal. Nessa época eles estavam produzindo a marca de jeans do Cristiano Ronaldo.

E eu caí de paraquedas aqui. Sabia que era a oportunidade da minha vida e não ia ter outra parecida — então precisava fazer valer: era a primeira a chegar no escritório e a última a sair.”

Quando os três meses do estágio chegaram ao fim, os superiores de Amandha perguntaram se ela tinha interesse em ser efetivada e a paranaense teve oportunidade de passar por todos os setores da empresa. Foram quase dois anos trabalhando lá até que a companhia optou por voltar para a África do Sul, já que os custos eram bem mais em conta do que em Nova York.

Foi aí que Gaio teve que optar entre a estabilidade que havia conquistado naqueles dois anos OU… a Big Apple. E ela escolheu acordar na cidade que nunca dorme.

A escolha foi arriscada, mas se a Alicia Keys disse, é verdade: na selva de concreto onde os sonhos são feitos não há nada que você não possa fazer.

Nova York divide muito quem realmente nasceu pro corre e quem não nasceu, sabe? Porque aqui você não pode ficar parado. Se você parar a cidade te engole. Então, é o lugar pra pessoas que querem fazer acontecer, que não têm medo do trabalho, que não têm medo de sair da zona de conforto, porque a cidade de tira disso de todas as maneiras“.

A partir daí, Amandha — que já havia feito muitos contatos na cidade durante esses quase dois anos — começou a trabalhar como assistente de stylists.

Juntei meu background de modelo com o trabalho na companhia e entrei pro mundo do styling. Comecei como assistente, aí foram me indicando até que caí nesse mercado dos times brasileiros, porque virei um contato deles aqui em Nova York. As marcas grandes tem as assessorias brasileiras e, como eu trabalhava com stylists gringas e o pessoal do mercado americano, tenho o contato dessas marcas. Aí, comecei a fazer essas produções pro pessoal do Brasil

Demorou pra que ela se estabelecesse só com os freelas e, nesse meio tempo, Gaio não ficou parada: foi garçonete e se especializou em tradições judaicas de tanto que trabalhou em eventos e casamentos judeus. Mas, quando o trabalho como produtora decolou, decolou pra valer: sua primeira cliente foi a Vivara e, logo, Amandha já era figurinha carimbada em jobs com marcas importantes, como a Vogue Italia. Pergunto qual foi sua experiência mais surreal com alguém famoso e ela não hesita para responder:

Gisele Bündchen. Como eu era modelo, fui da geração que acompanhou a Gisele no auge do auge — e ela era minha diva master. Eu guardava recortes de revistas dela quando era novinha e comprava Ipanema só porque tinha foto dela na caixa. Aí, no dia que fui trabalhar com ela foi surreal. Eu tive que manter minha compostura, falei ‘não, tudo bem, vou saber agir na frente dela e da minha chefe’, fiquei quietinha, bonitinha, mas me tranquei no banheiro e mandei áudio pra minha família chorando falando ‘cara, tô no set com a Gisele!’ e a Gisele é uma pessoa INCRÍVEL, incrível mesmo. Uma pessoa muito boa, muito simples, que trata todo mundo bem, desde a pessoa da limpeza até o CEO

Mas nomes importantes já não são raros no currículo da agudense, que trabalha com frequência com as já mencionadas Pabllo Vittar, Bruna Marquezine e Jade Picon, além de Duda Beat, Renata Corrêa, Rita Lazzarotti e João Ribeiro. O melhor de tudo? A galera tá no topo, porém é pé no chão:

Eu tenho muita sorte que eu acabo trabalhando sempre com pessoas muito boas. Até então eu não tive a infelicidade de ter que lidar com estrelismos. Eu sou muito feliz porque eu tô vivendo um momento da minha carreira muito bom!”

Ainda pensando em Carrie Bradshaw, Miranda Priestly e Andrea Sachs, pergunto o quão glamoroso é o seu dia-a-dia.

Assim como eu tô em Nova York produzindo trabalho pro Brasil, tem gente do mundo inteiro fazendo trabalho pra outros países. Então, eu tô concorrendo o mesmo look com muitas pessoas — parece um trabalho glamoroso e fácil, mas é bem complicado. Especialmente quando eu tô trabalhando com celebridades que são grandes no Brasil, mas ainda não são conhecidas aqui fora pelas marcas.

Ela também conta que uma boa parte do trabalho consiste nas ‘pickups’ — que, é quando eles vão até os escritórios de marcas como Gucci e Balenciaga para buscar as roupas, bolsas e sapatos previamente acordados — as roupas são entregues em diversas sacolas sem logo, por questão de segurança.

A gente fica na rua carregando MUITA sacola, são coisas pesadas, os escritórios não são perto do trem e tem que andar um monte. Aí, como tudo é muito longe, a gente prefere já ir pra rua e pegar tudo de uma vez só, então vou numas sete marcas em um dia só.

Já rolou muito de, no fim do dia, precisar buscar alguma coisa em um prédio chique e o porteiro não me deixar entrar porque tô cheia de tralha ou achar que sou mendiga. Eu tenho um carrinho de feira — sabe aqueles de velhinha ir na feira? — e ando com ele pra cima e pra baixo e vou colocando tudo nele, não tô nem aí pra quem tá olhando. Todo mundo acha que você anda super bem vestindo em Nova York, com looks de blogueira incríveis, mas isso não acontece! Essa coisa do Diabo Veste Prada, do Sex and The City realmente existe pra blogueira que desce do táxi, vai direto pro restaurante e não pega trem, mas isso é pra poucos.

A galera que eu conheço que trabalha em escritório de moda, não andam assim. Óbvio que tem exceções, se você trabalhava no escritório sentadinha na sua mesa, pode ser que isso aconteça, mas na minha realidade, trabalhando com styling e produção, sempre na rua, é impossível

As definições de “quem vê close não vê corre” foram atualizadas. Pra essa paranaense, desmistificar a vida na capital do mundo é muito importante, mas engana-se quem pensa que isso vem acompanhado de um discurso meritocrático:

Você não precisa ser a pessoa mais rica do mundo pra vir morar aqui. Eu odeio a palavra meritocracia e não acredito nela, o que eu tô falando é: eu sou uma pessoa que nasceu no interior, numa cidade pequenininha, filha de pais professores de escola pública. Obviamente, quando comparada com a situação de milhares de pessoas no Brasil, sou muito privilegiada — e tenho muita noção dos privilégios que tenho.

Nova York era uma coisa muito distante de mim. A primeira vez que vim pra cá, vim com 500 dólares que meu pai fez um empréstimo pra me dar. O mercado da moda pode ser muito injusto, mas também pode ser um mercado de muita oportunidade pra quem arrisca — e Nova York é uma cidade muito boa pra isso, porque apesar de te exigir muito, tem muitas formas de você conseguir fazer seu dinheiro e ir atrás do seu sonho. É uma cidade de muitas oportunidades, porque tudo acontece aqui primeiro.”

Termino a entrevista achando Amandha ainda mais legal do que seu perfil no Instagram — algo raríssimo em 2021. Pra encerrar, pergunto quais são as principais transformações que ela vê hoje em si mesma.

Aos 15 anos, Gaio sofria bullying. Uma das cenas que mais a marcou foi uma ocasião em uma Sexta-Feira Santa, durante a tradicional malhação de Judas de sua cidade, quando um grupo de meninas fez um boneco com seu rosto e a letra de “Chic, Chic, Chic“, da cantora Kelly Key: “Eu quero ser famosa, ser uma grande artista, gravar comercial, ser capa de revista“. A brincadeira era uma forma de violência por ela ousar olhar além — e Amandha sentia que precisava provar que essas pessoas estavam erradas.

Aos 30 — e com raízes fincadas em Nova York — ela acredita que as transformações são mais profundas que seus arredores.

“A principal mudança foi eu acreditar em mim mesma. Foi saber que consigo fazer alguma coisa por mim sem precisar de alguém — sem precisar me provar, sem precisar ser cool ou ser aceita. Eu sou essa pessoa, eu sou capaz de conquistar muito mais do que imagino sem fazer isso pelos outros, mas por mim mesma. Adoraria que a Amandha adolescente soubesse disso… quer dizer, eu não voltaria no tempo pra contar pra ela porque talvez eu não tivesse tanta garra de fazer acontecer se eu soubesse que tudo ia dar certo no final. Não sei se no final deu, né? Ainda não cheguei lá. Mas até aqui já tô muito orgulhosa!”

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Jornalista, geminiana, paulistana & esquisita. Gosto de geopolítica, arte, cultura pop e aleatoriedades em geral. Por aqui, acho importante trazer temas que abordem diversidade, ativismo e outras causas relevantes — além de entrevistas que mostrem lados que as redes sociais nem sempre exploram =) No Keeping, assino meus textos como Kyra, e você pode conhecer mais sobre meu trabalho aqui: https://www.linkedin.com/in/jamilediniz/

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