Keeping Up With Mayra Dias Gomes

Entrevista exclusiva com Mayra Dias Gomes, filha do autor Dias Gomes

Ela já está acostumada a ser apresentada – quase sempre – primeiro pelo sobrenome, afinal, seu pai foi ninguém menos que Dias Gomes, um dos maiores autores de novelas do país, como “Roque Santeiro” e “Saramandaia”; e a mãe, é a talentosa atriz Bernadeth Lyzio.

Mas, por um momento, se permita conhecer a mulher por trás de tanta história, de fala doce e com um sotaque simpático de quem já está há muito tempo morando fora do Brasil. A Mayra por ela mesma. Criativa, livre, rebelde e inquieta, que se joga no mundo, mas também faz muitos planos. E que desde a sua adolescência aprendeu a canalizar as dores em forma de arte: a escrita.

Apesar dos naturais momentos de pressão ao longo de sua trajetória, ela conta que foi descobrindo aos poucos a tirar proveito de suas experiências para conseguir encontrar a própria identidade. E se engana quem pensa que a jornalista veja o talento da família como um fardo. “Eu nunca vou me comparar ou me igualar ao meu pai, mas com o tempo aprendi a não me importar com isso [as comparações] e, na verdade, a ter orgulho, porque é um orgulho ter um pai maravilhoso, uma mãe maravilhosa e ter tido uma infância maravilhosa. Então não me incomoda mais”. Inclusive, tem um relato em um blog antigo dela, que acabei encontrando em uma das pesquisas para o nosso papo, que é tão bonito e bem escrito sobre sua história, que vale a leitura para quem se interessar.

A veia artística, no entanto, é realmente inegável. Criada em um ambiente extremamente rico culturalmente, ela revela que aquilo lhe era tão natural no dia a dia, que foi muito tranquilo para se desenvolver nessa área.

“A minha infância foi basicamente escrever peça, encenar peça, escrever música, inventar coreografia e fazer shows, porque eu cresci vendo isso, nesse mundo com meus pais, meu pai escrevendo novela. Acho que quando se é criança, você não tem noção que a sua realidade não é a de todo mundo, então para mim parecia normal. Tudo era arte, teatro, televisão, música. Era tudo o que eu mais gostava de fazer”, relembra.

E adivinhem quem era a melhor amiga dela desde pequenininha? Yasmin Brunet! Dá para acreditar? O mundo é realmente pequeno. E as duas não apenas cresceram juntas, como ainda tiveram uma banda. Ou seja, mais anos 2000 do que isso, é impossível.

“Temos um milhão de histórias”, se diverte. “Todas essas peças e encenações envolvem basicamente eu, minha irmã [Luana] e a Yasmin e algumas outras amigas nossas da época. […] Nossas mães eram melhores amigas, a Luiza [Brunet] fez algumas novelas do meu pai, morávamos no mesmo prédio e estudamos juntas até, mais ou menos, os 15 anos, quando Yasmin se mudou para Nova York”, revelou.

O COMEÇO DE TUDO

Assim como toda a geração de millennials, Mayra cresceu em um mundo que ainda não tinha internet, mas que a viu surgir e ganhar espaço cada vez maior em nossas vidas de lá para cá. Bem-humorada, antes de falar sobre a sua relação com a rede, ela conta uma história de quando ficou sabendo da existência da novidade tecnológica.

“Eu era bem criança, lembro que me falaram que era um lugar onde você podia encontrar qualquer coisa que quisesse. Aí o meu pensamento da época foi em escrever um e-mail para a minha sobrinha, só que o meu pai podia ler e eu estava com muito medo, então escrevi todo em códigos. Depois escrevi outro e-mail sobre como ler os códigos. E basicamente a minha pergunta para ela foi: ‘Como que eu faço para encontrar o Brad Pitt pelado?’. Esse foi o primeiro pensamento que eu tive e foi a primeira coisa que eu procurei na internet”, contou, aos risos.

“Acho que reflete um pouco da empolgação, da excitação da época, de ‘meu Deus!’. Era algo novo e maravilhoso, um novo mundo aberto. E eu [pensava]: ‘posso conversar com pessoas de outros países, encontrar letras para as músicas que eu gosto, imprimir poster’. Eu amava!”

Mayra ao lado do pai e dos irmãos | Reprodução

E, de fato, a internet acabou tendo um papel crucial na vida de Mayra. Aos 11 anos, em maio de 1999, ela acabou descobrindo que o pai havia morrido depois de ler a notícia direto no site da Globo. Dias Gomes voltava de um jantar com a esposa, após assistirem um musical, quando o motorista do táxi fez uma conversão proibida e o veículo foi atingido por um ônibus que vinha na direção contrária. Sem cinto, ele foi projetado para fora do carro e não resistiu.

Foi nesse turbilhão de sentimentos e acontecimentos que ela iniciou a adolescência. E, sem se identificar mais com a escola em que estudava, com apenas 15 anos, abandonou os estudos – mesmo contra a vontade da mãe – para se aventurar em um mundo novo. Com perfis em blog e fotolog, passou explorar suas vivências através da escrita e a dividir essas histórias, que foram ganhando espaço nas redes e cada vez mais fãs, o que tornou possível o lançamento de seu primeiro livro, um best-seller.

“É muito incrível. Tenho muito orgulho de ‘Fugalaça’ (2007). Escrevi aos 16 anos, estava passando pelos problemas típicos da adolescência, depressão, problemas com drogas… tentando descobrir quem eu era e em relacionamentos não necessariamente bons para mim. Então ele veio de um lugar muito sincero, muito verdadeiro, e acho que por isso que fez tanto sucesso, porque eu realmente estava falando do que estava acontecendo comigo na época e tocando em coisas que eu acho que as pessoas têm vergonha de falar, seus próprios problemas e erros. E isso mudou a minha vida”, exalta.

O pontapé na carreira literária lhe trouxe muitos frutos e uma carreira promissora também no jornalismo, por isso ela brinca: “meus planos deram certo, então minha mãe não pode brigar comigo”.

VIDA EM HOLLYWOOD

Se o trabalho veio cedo, Mayra soube aproveitar as oportunidades e não parou mais. Como jornalista ela contribuiu para alguns dos veículos mais importantes do país, como Folha de São Paulo, Glamour e até a extinta MTV.

Em Hollywood Mayra se apaixonou, entrevistou diversos artistas renomados e acabou se instalando de vez por lá. | Reprodução Instagram

Foi então que a necessidade de mudança bateu de novo e, aos 21 anos, ela decidiu ir para Los Angeles respirar novos ares e buscar inspiração para um novo livro. “Na minha cabeça, eu ia ficar um mês, mas na época conheci meu ex-marido [Coyote Shivers, ator e cantor canadense] e resolvi que não ia mais voltar para casa”, relembra.

Hoje há 12 anos morando por lá, Mayra já teve a oportunidade de conhecer e conversar com quase todos os seus ídolos de música e cinema, além de frequentar festas, premieres e eventos como o Oscar, por exemplo. Quando pergunto como é viver nos bastidores deste mundo de celebridades, já que sempre parece quase uma realidade à parte e ela me corrige: “Mas é! Eu digo para você que Hollywood realmente é um outro universo”, e engata uma história hilária, de quando ela mesma cometeu uma gafe daquelas assim que havia mudado para lá. “Eu ainda tinha um certo deslumbramento com as coisas e às vezes não acreditava no que estava acontecendo na minha vida.”

Em uma festa na casa de um produtor musical bem badalado, que queria mostrar um novo álbum do Neil Young que ele havia acabado de produzir, ela se afastou do grupo do ex-marido e amigos por alguns minutos e foi para a cozinha preparar uma bebida.

“Alguém entrou e me apresentou para alguém: ‘Essa é a May. Esse é o Jim’. E eu, nem um pouco preocupada, não olhei para ver quem era, não prestei muita atenção. Aí o Jim ficou na cozinha, eu também. De repente, sento na mesa, dou para ele um drink, ele pediu uma Coca-Cola, porque não bebia… e eu me toco que estou sentada em uma mesa com o Jim Carrey! Eu demorei uns 20 minutos para perceber isso. Aí outras pessoas chegaram, tem até uma foto desse momento da minha cara olhando para ele, completamente assustada, em choque, porque eu estava sentada há 20 minutos ignorando ele. E na minha cabeça eu só pensava: Será que todo mundo nessa cozinha sabe que é o Jim Carrey que está aqui? Claro que todo mundo sabia”, se diverte.

Jim Carrey, sua Coca e a cara assustada de Mayra ao reconhecer o ator. Bem gente como a gente mesmo! | Reprodução

NOVOS CAMINHOS

Mas, histórias à parte, Mayra já fez de tudo um pouco por lá e conseguiu crescer muito profissionalmente, a ponto de poder se desafiar em áreas que nem imaginava, como recentemente, quando ela encontrou na luta livre, o wrestling, uma nova paixão e o refúgio para lidar com a depressão.

Sua dedicação nos ringues era tão evidente que, ainda nos treinamentos da escola, ela foi notada por Billy Corgan, o líder da banda Smashing Pumpkings, que também é dono da companhia NWA, a mais antiga de luta livre do mundo, e ele a convidou para fazer parte da empresa. Apesar de a modalidade não ser tão popular no Brasil, ela explica que existem funções muito plurais e diversas.

“As pessoas não têm ideia de quão grande o universo da luta livre é. Comecei como manager, tipo acompanhante de um dos lutadores na luta, aí nos dois últimos anos já fui repórter do backstage, apresentei um programa, fui comentarista e agora sou a apresentadora no palco do programa principal, que é o NWA Power.”. Aliás, em dezembro começa uma nova temporada e é possível acompanhar pelo app da FITE TV.

E ela não para! Além de planos futuros de levar suas obras para os cinemas, a jornalista já se prepara para lançar seu sexto livro da carreira, mas aproveita para mandar um agradecimento carinhoso às leitoras que a acompanham desde ‘Fugalaça’. “Sinto que todas as coisas ruins que eu passei na minha adolescência serviram para algo, ajudaram outras pessoas. Isso é algo muito especial e que me motiva a continuar escrevendo, sendo eu mesma, dividindo as histórias loucas da minha vida”, finaliza.

Publicado por

Jornalista, filósofa de travesseiro e escritora de meia tigela. E, pra piorar, ainda é canceriana, pensa no drama! Nas horas livres reclama da vida, fala de reality e escreve umas bobagens

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